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Manjedoura vazia e cruz de madeira em um ambiente iluminado.Teologia Sistemática

Unigênito

Recentemente me senti inspirado a compor um hino de natal para o “Kyrie”, haja visto que há poucos hinos natalinos para este momento do culto cristão. Neste caso, o hino acabou se tornando um “kyrie natalino”. Pensei na letra como uma lembrança de que o Deus-Filho que nasceu em Belém veio para padecer na cruz em nosso lugar. A encarnação de Jesus não pode ser separada da crucificação, ressurreição e ascensão.

Após finalizado, fizeram-se cópias para que o nosso Coral Paroquial pudesse ensaiá-lo para o Natal. Em um dos ensaios, aconteceu um fato curioso. Ao final do ensaio, uma criança de nove anos veio em minha direção com a seguinte pergunta que expresso aqui com as minhas palavras:

“Na letra você disse que Jesus foi gerado do Pai; mas Jesus não foi gerado de Maria?”

Esta é uma pergunta muito interessante. Confesso – com humildade – que a primeira coisa que pensei foi:

“quando procuramos ter uma boa teologia nas comunidades, até as crianças se interessam por assuntos teológicos”.

Mas, afinal de contas, por que cremos que Jesus foi gerado do Pai? Quais são as evidências bíblicas e histórico-sistemáticas para isso?

Uma visão bíblica

Um versículo básico para falar do Filho gerado – não criado – é João 3.16. Neste versículo, lemos na versão NAA:

“— Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

João diz que Jesus é o “Filho unigênito” de Deus (o Pai). No grego original do Novo Testamento, encontramos a expressão “υἱὸν τὸν μονογενῆ” (huios ton monogené). Μονογενῆ é a junção de duas palavras: Μονο que significa único e γενῆ que significa gerado. Portanto, conforme o testemunho joanino, Jesus é o único Filho gerado do Pai. João 3.16 é a única vez que a palavra μονογενῆ aparece em referência a Jesus. Assim, Jesus como μονογενῆ (unigênito, único gerado) é o único que pode dizer “Eu e o Pai somos um” (João 10.30). Porém, o que significa dizer que Jesus é o “único Filho gerado do Pai?”

Assim nos diz João 1.1-4: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens”. Para Verbo encontramos no grego original a importante palavra λόγος (logos) – fundamental na filosofia grega. Na filosofia de Heráclito de Éfeso, o λόγος é aquilo que mantém o equilíbrio e a existência de todas as coisas. Desta forma João – enquanto conhecedor da filosofia de Heráclito e com a intenção de levar o Evangelho aos gregos – testemunha que todas as coisas que existem foram criadas por meio do λόγος que é Jesus. Assim, a existência de Jesus não inicia apenas no Novo Testamento quando ele nasceu de Maria; ao contrário, a Pessoa do Filho já estava presente na Criação. O Pai criou tudo o que existe por meio do Filho. O apóstolo Paulo diz em 1 Coríntios 8.6:

“para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas existem e por meio de quem também nós existimos”.

Em Colossenses 1.15-17, Paulo testemunha o seguinte a respeito de Jesus:

“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste”.

Portanto, antes de ser concebido pelo Espírito Santo no ventre de Maria, Jesus já havia sido gerado pelo Pai – mistério da salvação. Jesus, o Filho, não foi criado pelo Pai, mas gerado pelo Pai. O Pai é o mistério abissal; o Filho foi gerado pelo Pai e o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho. E o grande milagre da Encarnação é que Jesus – aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas – “se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de Cruz.” (Filipenses 2.7-8). Aquele que foi gerado pelo Pai na eternidade e por meio de quem todas as coisas que existem – visíveis e invisíveis – foram criadas, agora se tornou um ser humano tal qual outros seres humanos, mas sem deixar de ser Deus. Na morte de cruz, não foi apenas um homem que morreu: o Deus-homem morreu na cruz. Usando a linguagem joanina, podemos dizer que o λόγος morreu na cruz – algo inconcebível para a mentalidade grega da antiguidade. Na verdade, já lhes era inconcebível que o λόγος se fez σὰρξ (carne) e habitou entre nós, visto que havia um desprezo dos gregos pelo corpo. Quanto mais absurdo ainda foi para os gregos lerem/ouvirem que o λόγος morreu na cruz! Aquele que sustenta todas as coisas e mantém todas as coisas padeceu no madeiro. O próprio cosmos sentiu esse momento: “Eis que o véu do santuário se rasgou em duas partes, de alto a abaixo; e a terra tremeu e as rochas se partiram”. (Mateus 27.51).

Para finalizar este tópico bíblico, há uma distinção fundamental a ser feita: Jesus é o único gerado (unigênito); já nós não fomos gerados do Pai, mas criados pelo Pai. Somos criaturas de Deus e não pessoas geradas de Deus. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, isto é, como representantes/embaixadores de Deus no mundo. Contudo, não somos deuses, da mesma forma como a criação não é uma divindade. Através do irmão Jesus, o seu Pai se tornou também o nosso Pai. Não por méritos nossos ou por qualificações próprias humanas, mas somente pela graça divina.

Heresias cristológicas

Nos primeiros séculos da Igreja Cristã, houve debates acerca da divindade e da humanidade de Jesus Cristo. Esse debate foi importante, pois a soteriologia (doutrina da salvação) depende de uma boa cristologia (doutrina sobre Cristo). Na verdade, enquanto a igreja do Ocidente – Roma – estava mais preocupada com os temas administrativos, o tema da cristologia desenvolveu-se na igreja do Oriente, especialmente nas escolas de Alexandria e Antioquia.

Um dos personagens marcantes deste período da história da teologia foi Ário que, embora fosse um irmão devotado ao Senhor e piedoso, afirmava que Jesus nasceu completamente humano e que ele só veio a receber a divindade no momento do batismo. Uma de suas frases notórias dizia que “Deus não pode nascer entre fezes e urina”. Por causa disso, uma carta sinodal do I Concílio de Nicéia aos egípcios de 325 d. C. afirmava que “unanimemente decidiu anatematizar a sua ímpia doutrina e as expressões blasfemas que empregava em suas blasfêmias ao dizer que o Filho de Deus veio do nada e que havia um tempo em que não era”1. Da mesma forma o Sínodo de Roma em 382 se posicionou contra Ário por ele afirmar que “o Filho e o Espírito Santo são criaturas”2, haja visto que Jesus não foi criado pelo Pai, mas dele gerado.

Outro teólogo tido como herege foi Apolinário. Ele afirmava que Jesus teria apenas a aparência de Deus (docetismo). Para Apolinário, Jesus teria apenas uma alma sensitiva enquanto a natureza divina do Verbo (λόγος) substituiria a sua alma racional. Assim, o problema cristológico de Apolinário era a sua consideração de que Jesus seria “menos Deus que homem”. Por isso, as ideias de Apolinário foram condenadas no I Concílio de Constantinopla em 381 d. C.

Nestório, outro herege, irá lançar a doutrina dos dois Cristos, um humano e outro divino, porém com as naturezas separadas. O seu problema teológico foi dividir as duas naturezas de Cristo como se fossem duas entidades e não apenas uma pessoa. Além disso, Nestório afirmava que Maria não é mãe de Deus (Theotokos), mas apenas mãe de Cristo (Cristotokos). Por causa de suas ideias heréticas, Nestório foi condenado no Concílio de Éfeso em 431 d. C com a seguinte declaração:

Como o ilustríssimo Nestório, entre outras coisas, não quis nem obedecer a nossa convocação, nem acolher os santíssimos bispos mandados por nós, fomos obrigados a proceder ao exame de suas ímpias expressões; e como, por suas cartas, pelos escritos que foram lidos e pelas afirmações recentemente proferidas nesta metrópole, como ficou atestado, o flagramos pensando e pregando impiamente, obrigados pelos cânones e pela carta do nosso santíssimo pai e colega no ministério Celestino, bispo da Igreja de Roma, chegamos, muitas vezes, com lágrimas, a esta dolorosa condenação dirigida contra ele: Nosso Senhor Jesus Cristo, por ele blasfemado, estabeleceu, pela boca desde santíssimo Sínodo, que o mesmo Nestório está excluído da dignidade episcopal e de todo e qualquer colégio sacerdotal.3

O Credo da Calcedônia

Diante das inúmeras divergências em relação à fé e, especialmente, a Cristo, a Igreja Cristã se reuniu em concílios para debater as questões teológicas e cristológicas. É importante ressaltar que os credos não são meras sistematizações produzidas pela razão humana; ao contrário, os credos da Igreja surgiram após longos estudos bíblicos e debates das questões fundamentais da fé.

Em 325 d. C., aconteceu o I Concílio de Nicéia (1º ecumênico), convocado pelo próprio Imperador Constantino. Neste Concílio, produziu-se o Símbolo Niceno que é tido como um dos credos mais significativos da Igreja. Foi o exemplo deste Concílio que deu origem à tradição da redação de “símbolos sinodais”. Sobre Jesus, o Concílio decidiu afirmar o seguinte (fiz questão de manter as palavras importantes em grego entre parênteses):

Cremos [...] em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido unigênito (μονογενε) do Pai, isso é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, nascido, não feito/criado (οὐ ποιηθέντα), de uma só substância (ὁμοούσιον) com o Pai; por meio do qual foram feitas todas as coisas que há no céu e na terra; o qual, por causa de nossa salvação desceu, se encarnou e se fez homem, e padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu aos céus, havendo de vir julgar os vivos e os mortos.4

Não há dúvida que as palavras desse credo são fundamentadas nas mesmas passagens bíblicas que abordamos no início deste texto. O Credo Niceno-Constantinopolitano não substitui as Escrituras, mas é um resumo claro e objetivo daquilo que todos os cristãos precisam crer sobre Jesus – do contrário, não poderão ser considerados cristãos.

Em 451 d. C., no Concílio da Calcedônia (4º ecumênico) foi redigido um Símbolo de fé apenas sobre as duas naturezas de Cristo. Na declaração, diz-se o seguinte sobre Jesus (novamente, mantenho as palavras mais importantes do original grego entre parênteses):

Seguindo, pois, os santos Padres, com unanimidade ensinamos que se confesse que um só e o mesmo Filho, o Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na sua divindade e perfeito na sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de alma racional e de corpo, consubstancial (ὁμοούσιον) ao Pai segundo a divindade e consubstancial (ὁμοούσιον) a nós segundo a humanidade, semelhante em tudo a nós, exceto no pecado, gerado (γεννηθέντα) do Pai antes dos séculos segundo a divindade e, nestes últimos dias, em prol de nós e de nossa salvação, gerado de Maria, a virgem, a Theotokos, segundo a humanidade;

um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, unigênito, reconhecido em duas naturezas, sem mistura, sem mudança, sem divisão, sem separação, não sendo de modo algum anulada a diferença das naturezas por causa dessa união, mas, pelo contrário, salvaguardada a propriedade de cada uma das naturezas e concorrendo numa só pessoa e numa só hipóstase; não dividido ou separado em duas pessoas, mas um único e o mesmo Filho, unigênito, Deus Verbo, o Senhor Jesus Cristo, como anteriormente nos ensinaram a respeito dele os Profetas, e também o mesmo Jesus Cristo, e como nos transmitiu o Símbolo dos Padres.5

Conclusão

A cristologia é um dos assuntos fundamentais da fé cristã. É a cristologia que molda a teologia, a liturgia e a vida comunitária. Um entendimento equivocado sobre Cristo é perigoso porque leva a própria Igreja Cristã a ensinar de maneira incorreta o caminho da salvação eterna, haja visto que a soteriologia depende fundamentalmente da cristologia e de que não seja possível tratar de uma sem falar da outra.

Diante dos tantos arquétipos de Jesus Cristo presentes no mundo hoje – desde o Jesus hippie de paz e amor até o Jesus “acima de tudo e todos” do messianismo político – é fundamental que a Igreja se volte para as Escrituras e para os debates cristológicos dos primeiros séculos em busca de clareza cristológica para os nossos tempos.

O que percebemos é que há uma grande pobreza eclesiológica sobre o assunto; as próprias músicas que são cantadas nos cultos são cada vez mais superficiais e, talvez, até representem uma certa “adoração líquida” voltada apenas a “fazer bem ao indivíduo” que ali está. A música é uma importante ferramenta de divulgação teológica e de evangelização. A Igreja Cristã precisa urgentemente de compositores que arrisquem escrever letras que não tem como função apenas satisfazer a uma necessidade de consumo de espiritualidade, mas de levar a quem está no culto a refletir sobre esses assuntos teológicos – como aquela criança de nove anos de idade.

Notas

  1. DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. 3. ed. São Paulo: Paulina; Loyola, 2015. p. 53.

    ↩
  2. DENZINGER, 2015. p. 68.

    ↩
  3. DENZINGER, 2015. p. 101-102.

    ↩
  4. DENZINGER, 2015. p. 51.

    ↩
  5. DENZINGER, 2015. p. 113.

    ↩