LiturgiaEspiritualidade e Materialidade
Tenho aprendido que não há oposição entre espiritualidade e materialidade; aliás, não há espiritualidade sem materialidade. A vida de fé e seus símbolos não estão desprendidos da realidade em que vivemos. É na materialidade que praticamos a espiritualidade.
Deus não é contra a matéria! Prova disso é que ele, mesmo sendo Deus, “se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. E vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai.” (João 1.14). Deus não está contra a matéria e o mundo porque ele mesmo se fez gente como a gente e entrou para dentro do nosso mundo – mas sem deixar de ser Deus: “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem; em tudo igual a nós, exceto no pecado” (Credo da Calcedônia, 451 d. C.).
Em sua vida, Jesus não negou a materialidade em nome de uma supervalorização de “valores espirituais”. Muito ao contrário, suas ações sempre estavam ligadas à materialidade: ele realizou a multiplicação de pães e peixes (cf. Marcos 6.30-56), a cura de diversas enfermidades do espírito e do corpo (cf. Lucas 7.11-17; Mateus 8.1-17; 9.1-8, 18-26, 27-31; João 4.46-54; Marcos 1.29-34; 5.24-34 entre outros textos), transformou água em vinho (cf. João 2.1-11), fez o milagre da pesca maravilhosa (cf. Lucas 5.1-11), entre tantas outras ações.
Para Jesus, não bastava dizer “estamos orando por você” ou “um dia, na eternidade, você entenderá!”; ele não negava a materialidade da dor, do sofrimento, da angústia, da fome, da sede, da miséria; era exatamente ali que ele agia! Além disso, no dia do “Grande Julgamento” ninguém será cobrado por ter ou não lido a Bíblia diariamente ou feito ou não orações. Sim, essa é uma frase provocativa. Porém, ela não deve ser entendida como uma negação da importância da vida devocional. O que quero dizer é que seremos cobrados em nossas ações materiais:
“Então os justos perguntarão: “Quando foi que vimos o senhor com fome e lhe demos de comer? Ou com sede e lhe demos de beber? E quando foi que vimos o senhor como forasteiro e o hospedamos? Ou nu e o vestimos? E quando foi que vimos o senhor enfermo ou preso e fomos visita-lo? – O Rei, respondendo, lhes dirá: “Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mateus 25.37-40).
Podemos resumir esses versículos em uma lista de materiais: alimento, água, casa, roupas, remédios e companhia. Esta é uma espiritualidade que não nega a materialidade como má, mas que enxerga a materialidade como bênção a ser partilhada. Não é à toa que após o evento do Pentecostes, a diaconia se tornou uma marca das primeiras comunidades cristãs:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente, perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (Atos 2.42-47).
A espiritualidade não estava desassociada da materialidade; ao contrário, era na materialidade que os primeiros cristãos testemunhavam na prática da sua espiritualidade marcada pela abnegação.
Sem entrar em muitos detalhes, é preciso perguntar: de onde veio, então, a negação da materialidade? De Platão. Sim! A filosofia platônica invadiu a fé cristã, trazendo muita alienação aos cristãos.
Para os gregos, a matéria é por excelência má e o mundo é marcado por acidentes. Também o ser humano, como material, é visto como algo insignificante, desprezível e passível de diferenciações de valor. Alguns poderiam valer mais que outros. Nesta cultura, o igual só existe na matemática que pertence ao mundo das ideias. Já no mundo sensível, não há igualdade, mas as diferenças de valorização do ser humano. A própria mulher era vista como má porque na visão platônica, a mulher era a responsável por capturar a luz que estava livre no mundo das ideias e aprisionar essa luz livre e eterna em um corpo frágil, cativo e com “prazo de validade”. Assim, a espiritualidade platônica negará a materialidade como algo repugnante; essa, porém, não é a essência da fé cristã.
Nós estamos entrando na Quaresma cujo desafio espiritual é o arrependimento, a reflexão e a penitência; mas, qual seria o desafio material da Quaresma? Acredito que já consigamos responder: o arrependimento deve redundar em novas ações práticas; a reflexão deve colaborar em maior humanização; e o jejum é muito mais que não comer ou beber: é repartir, doar e evitar o desperdício – que é um grande sinal de ingratidão.
Portanto, gostaríamos que começássemos a olhar para a fé desta forma: não supervalorizando a espiritualidade em detrimento da materialidade, mas ver na espiritualidade a ação na materialidade. A pergunta pelo desafio espiritual deve ser seguida da pergunta pelo desafio material. Isso não é uma imposição, mas um amoroso convite a uma leitura que não fica apenas em livros, mas que lê também a sociedade – não só nas “linhas escritas”, mas também nas “entrelinhas”.
Dito isto, tenhamos uma Quaresma abençoada pela redundância em ações realmente transformadoras.