Estudo BíblicoAs 9 marcas de crescimento da Comunidade em Jerusalém
“Nossa igreja sobreviverá ao ano 2000?”1 Essa pergunta foi feita por Godofredo Boll em 1971. Era uma pergunta legítima, afinal de contas, enquanto a população brasileira crescia cerca de 3,2%, a IECLB, de 1968 a 1969 havia crescido apenas 2,5%. Boll escreveu: “Se ontem nós luteranos representamos 0,9% da população brasileira, em trinta anos só mais representaremos 0,6%”. Bem, hoje já podemos responder à sua pergunta: Sim, sobrevivemos!
O mundo mudou. Boll provavelmente redigiu seu texto à caneta ou o datilografou em uma máquina de escrever. Hoje vivemos na era digital onde a tecnologia avançada é praticamente onipresente em nossas vidas e sociedade – especialmente agora com o desenvolvimento da Inteligência Artifical. Em 1971 havia um crescimento de igrejas pentecostais no Brasil. Hoje, igrejas pentecostais e neopentecostais se espalham pelos bairros das grandes cidades e do interior. Naquele tempo, quase não havia comunidades da IECLB nas grandes capitais e metrópoles. Hoje, há comunidades da IECLB em todo o território nacional.
Boll olhou 30 anos à sua frente. Neste momento, arrisco fazer novamente a conta de Boll, mas arredondando o número: nossa igreja sobreviverá ao ano 2050? As comunidades dos nossos sínodos continuarão contando com novos membros batizados e recebidos por profissão de fé? Ou o lento falecimento dos membros da IECLB significa, aos poucos, o lento e dolorido morrer de uma igreja que já foi fermento na sociedade brasileira?2
Ao olharmos para a Comunidade Evangélica de Jerusalém após o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes, descobrimos um fato curioso: “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (Atos 2.47c). Esta é a primeira comunidade cristã. Seu crescimento é algo que nos impressiona. O que será que eles faziam? O que será que eles estavam praticando para chegar a esse resultado? Quais são as suas marcas de crescimento?
Convido você a estudarmos as 9 marcas de crescimento da igreja em Jerusalém. Elas são encontradas em Atos 2.42-47. Contudo, para não corrermos o risco de uma interpretação superficial, precisamos ler as 9 marcas à luz de todo o Novo Testamento, pois, como pessoas evangélicas de confissão luterana, acreditamos no princípio de que “a Escritura interpreta a Escritura”. Vamos lá. Vem junto.
1. CLAREZA DOUTRINÁRIA
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos” (Atos 2.42a).
É interessante perceber que a primeira comunidade de todas tinha como primeiro princípio básico a clareza doutrinária e confessional. No grego do Novo Testamento, a palavra doutrina é didaché que também significa ensino. Portanto, a doutrina é o ensino correto. A mesma palavra aparece em Mateus 28.19-20, quando Jesus disse logo após ressuscitar dos mortos: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”. Também o apóstolo Paulo utiliza a palavra didaché em 2 Timóteo 4.3: “Pois haverá um tempo em que não suportarão a sã doutrina”.
Mas, qual era a doutrina? Qual era o ensino? O Novo Testamento ainda não estava escrito como conhecemos hoje. Por isso, os novos convertidos precisavam ouvir o testemunho daqueles que viram com seus próprios olhos e ouviram com seus próprios ouvidos a vida e a mensagem de Jesus Cristo. Quem são eles? Os apóstolos eram considerados as maiores autoridades sobre os eventos que marcaram a vida de Jesus, desce seu Nascimento até sua Cruz, Ressurreição e Ascensão. Os apóstolos testemunhavam que Jesus, o crucificado, é o Cristo – o escolhido de Deus (cf. Atos 2.36), que Jesus ressuscitou dos mortos, conforme as profecias do Antigo Testamento (cf. Atos 2.24-32), que Jesus subiu aos céus e está à direita de Deus, o Pai (cf. Atos 2.33a), que Jesus prometeu a vinda do Espírito Santo (cf. Atos 2.33b). Assim, os apóstolos testemunhavam de Jesus com clareza bíblica, cristológica e teológica. Esta clareza foi muito importante nos primeiros anos da fé cristã principalmente porque a transmissão da mensagem de Jesus acontecia principalmente através do testemunho oral. E todo ensino que não correspondia ao testemunho apostólico era visto como falso e mentiroso.
Mais tarde, esse ensino foi condensado no Credo Apostólico (por volta de 150 d. C.), que recebe esse nome justamente por estar fundamentado na doutrina dos apóstolos, o que torna claro o quanto o Credo é bíblico. Além dele, outros credos foram escritos: o Niceno-Constantinopolitano (325-381 d. C.) e o Atanasiano (430 a 500 d. C.) que constituem a expressão de fé confessada pela IECLB. Para expressar a fé evangélica de confissão luterana, Felipe Melanchton (1497-1560) escreveu em 1530 a Confissão de Augsburgo que recebeu a aprovação de Martinho Lutero (1483-1546) e cuja versão inalterada faz parte dos documentos confessionais da IECLB.
Hoje, nós vivemos um tempo de bastante “confusão teológica”. Para uma boa gestão e liderança, é fundamental que lideranças comunitárias conheçam e “perseverem na doutrina dos apóstolos”, buscando conhecimento bíblico e da confessionalidade luterana para o exercício de suas funções. A clareza teológica precisa ser uma marca da nossa igreja para o seu crescimento. Sem um fundamento firme, certamente a construção inteira irá à ruína.
2. A IGREJA COMO UMA FAMÍLIA
“e na comunhão,” (Atos 2.42b).
A segunda marca da igreja em Jerusalém é a comunhão. Mesmo sendo feita de pessoas diferentes, havia unidade na diversidade. Todos estavam unidos ao redor do centro que é Cristo, de sua morte para o perdão dos pecados e da sua ressurreição que impulsiona a esperança da vida eterna. Os cristãos de Jerusalém gostavam de estar juntos – e tinham Cristo em comum.
No grego, a palavra comunhão é koinonia e significa a união fraternal entre seres humanos, especialmente enquanto membros de uma mesma família.3 Portanto, pertencer à Igreja de Jesus significa fazer parte da grande família de Deus que inclui em mistério os crentes que já partiram e os crentes que ainda irão nascer pelo sacramento do Batismo. No centro desta união familiar está Cristo, o elo relacional que une os cristãos ao ponto de sermos chamados de irmãos em Cristo.
Para Lutero, a Igreja não é apenas instituição, “sociedade de coisas externas e ritos”4, mas uma sociedade de fé, na qual o Espírito Santo habita nos corações dos crentes. É nesta comunhão da Igreja que o Evangelho é pregado pura e retamente e os sacramentos (Batismo e Santa Ceia) são administrados corretamente, de acordo com o Evangelho.
No século XX, o teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) desenvolveu com solidez o tema da comunhão em sua obra “Vida em Comunhão”. Para ele, “Comunhão cristã é comunhão por meio de Jesus Cristo e em Jesus Cristo”5. Uma das grandes marcas da teologia da comunhão em Bonhoeffer foi estabelecer a relação entre comunhão e solidão como complementares: “Quem não suporta a solidão, que tome cuidado com a comunhão. Quem não se encontra na comunhão, que tome cuidado com a solidão”6. Em outras palavras: Sentimos saudades da comunhão quando vivenciamos demais a solidão; e sentimos falta da solidão quando vivenciamos demais a comunhão. Por isso, na família da fé, tanto a convivência quanto o devocional individual são igualmente valiosos e importantes. É preciso que as pessoas das nossas comunidades busquem esse equilíbrio com sabedoria.
Assim, é importante resgatarmos a visão da comunhão fraterna entre irmãos e irmãs em Cristo como uma grande família da fé que, mesmo nas diferenças, fortalece os laços, leva as cargas uns dos outros (cf. Gálatas 6.2) e vivem a fé juntos. Esta é uma maneira gentil de sermos protestantes contra o individualismo do nosso tempo, proporcionando que as comunidades se tornem espaços de acolhimento, inclusão, e pertencimento de uma grande rede de amor, cuidado, fé e esperança.
3. A EUCARISTIA
“no partir do pão” (Atos 2.42c).
A Eucaristia (Santa Ceia) era de fundamental importância na comunidade de Jerusalém após a Ascensão de Jesus e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes. A Santa Ceia era celebrada conforme havia sido ordenada pelo próprio Senhor Jesus Cristo na última noite que esteve com seus discípulos antes da sua crucificação (cf. Mateus 26.26-30; Marcos 14.22-26; Lucas 22.14-20). O apóstolo Paulo também concedeu orientações sobre a Eucaristia (cf. 1 Coríntios 11.23-25).
Como comunidade que crê na ressurreição de Jesus, as celebrações semanais em Jerusalém eram marcadas pela celebração da Páscoa, seguida da Santa Ceia onde se acreditava na Presença Real do Cristo vivo entre o seu povo. Para serem distinguidos dos judeus que faziam suas celebrações aos Sábados, os cristãos começaram a realizar as suas celebrações no Domingo, uma clara alusão à Páscoa e à ressurreição de Jesus.
Para a fé evangélica de confissão luterana, a Santa Ceia não é apenas um memorial e jamais poderá ser reduzida a apenas um símbolo. Mas cremos, ensinamos e confessamos que, conforme o Artigo X da Confissão de Augsburgo, “o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho e são nela distribuídos e recebidos”7. É o próprio Deus quem oferece a si mesmo para a remissão dos nossos pecados. Cristo está verdadeiramente presente ao mesmo tempo em que realizamos a Santa Ceia em memória de Cristo Jesus e de sua terrível humilhação e morte na rude cruz. A Santa Ceia é um meio da graça, ou seja, um sacramento instituído pelo próprio Deus para fornecer a sua graça à sua Igreja. Nela, recebemos perdão, graça e salvação – não pelo rito em si automaticamente8, mas pela fé que crê nas promessas de Deus.
Celebrar a Santa Ceia significa ter comunhão de mesa assim como Jesus praticava com os seus discípulos. É a forma mais profunda de vivenciar o amor de Deus e sentir o sabor da sua infinita graça. É a celebração da Páscoa – da vida e da esperança da vida eterna. Através da Santa Ceia, Deus concede graça a sua Igreja e confirma o perdão dos seus pecados. Esta é sempre uma oportunidade de arrependimento, conversão e recomeço para uma nova vida em Cristo Jesus. Por isso, o partir do pão é marca essencial da Igreja de Jesus e é importante que as lideranças das comunidades possuam clareza bíblica e confessional sobre a Ceia do Senhor, celebrada, claro, por aqueles que foram ordenados para administrá-la: pastores/as, diáconos/as, catequistas e missionários/as. No culto, a Igreja “festeja a presença do Ressuscitado. Congregada para o culto, ela se reconhece como corpo de Cristo, criado pelo Espírito Santo, consagrado para ser sal e luz no mundo”9.
Uma Igreja Viva é presença do Cristo Vivo entre o seu povo, celebrado na mesa do altar, partilhado como pão e vinho, recebido por graça e testemunhado a todo o mundo, pois o movimento que inicia na mesa do altar não fica restrito ao espaço litúrgico, mas precisa de expandir e se transformar em ações que encontram Cristo no dia a dia (cf. Mateus 25.31-46).
4. LITURGIA E CULTO
“e nas orações. Em cada alma havia temor;” (Atos 2.42d-43a).
“Diariamente perseveravam unânimes no templo.” (Atos 2.46a).
A liturgia é “um conjunto de atos, palavras e formas, carregados de significado, expressos de um certo jeito, numa certa sequência”10. A liturgia da primeira comunidade após Pentecostes era parte fundamental na vida dos primeiros convertidos.
Embora hoje haja um falso senso comum de que as primeiras comunidades não possuíam nenhuma tradição litúrgica, o Novo Testamento demonstra claramente que aquelas comunidades valorizavam a liturgia. Os primeiros seguidores de Jesus não se viam inicialmente como seguidores de uma nova religião, mas como judeus que reconheceram o Messias. Por isso, eles continuaram com muitas das práticas litúrgicas e a frequentar o Templo em Jerusalém e as sinagogas. “A estrutura da sinagoga e a liturgia foram em grande parte duplicadas pela igreja primitiva”11. D. A. Carson, teólogo reformado canadense, nos dá uma breve noção de como a liturgia da sinagoga era espelhada pelas comunidades cristãs primitivas:
uma típica liturgia da sinagoga, tanto antiga quanto moderna, é a seguinte: o chamado à adoração (muitas vezes uma “bênção em forma de salmo”); um ciclo de orações (focando-se sobretudo em Deus como Criador e no amor da aliança dele por Israel) (Deuteronômio 6.4-9) e outros textos (Deuteronômio 11.13-21; Números 15.37-41) que serviram tanto de confissão de fé como de bênção; um segundo ciclo de orações, geralmente conduzido por alguém que não seja o líder da sinagoga e que inclui louvor e petição, com a recitação congregacional das Dezoito Bênçãos; a leitura da Escritura (incluindo tradução, se necessário, e mesmo uma breve exposição) de, pelo menos, uma passagem da Torá, uma dos Profetas, e talvez uma dos Escritos; uma bênção (muitas vezes dos Salmos); o sermão; a bênção congregacional e o amém.12
Desta forma, os primeiros cristãos liam o Antigo Testamento e faziam uma releitura dos ritos sagrados a partir de uma perspectiva cristológica. Havia perseverança por parte dos cristãos ao templo especialmente para que os apóstolos pudessem testemunhar aos irmãos sobre a vida de Jesus. Os primeiros cristãos não frequentavam o templo por obrigação, mas com alegria e espontaneidade.
As orações (mencionadas em Atos 2.42d) aconteciam três vezes ao dia: às 9 horas da manhã (chamada hora terça), ao meio-dia (hora sexta) e às 15 horas (hora nona). Estas eram as horas canônicas13 onde os seguidores de Jesus paravam o que estavam fazendo para orar o Pai-nosso, conforme ensinado por Jesus (cf. Mateus 6.9-15; Lucas 11.2-4). Importante era que esses momentos de oração fossem encontros com Deus e não oportunismo para a vanglória e soberba humana (cf. Mateus 6.5-8). Em Atos 3.1, lemos: “Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona”. Atos 10.9: “No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar”. E Atos 10.30: “Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes”. Logo, o próprio Novo Testamento não deixa dúvidas de que a liturgia fazia parte das primeiras comunidades cristãs, organizando a vida de oração dos cristãos individualmente e comunitariamente.
Não é apenas o Novo Testamento que nos dá informações sobre as orações diárias. Também escritos pós-apostólicos (ou seja, escritos após a morte dos apóstolos) registraram o quanto as primeiras comunidades cristãs eram litúrgicas. A Didachê, importante documento de instrução dos cristãos do Século II, diz: “Rezem assim três vezes por dia”14. Tertuliano de Cártago, importante Pai da Igreja, orientou a Igreja do segundo século a manter as orações três vezes ao dia:
1. Quanto ao tempo da oração, não será supérfluo observar, além dos momentos prescritos, as orações também em certas horas que todos conhecem e que marcam as partes do dia: nove da manhã, meio-dia, três da tarde. Tais horas, podemos ver na Escritura, são as mais importantes.
2. Foi às nove da manhã que, pela primeira vez, o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos reunidos (cf. At 2,1-4).
3. Pedro tinha subido ao meio-dia ao terraço para orar, e teve a visão dos alimentos impuros numa toalha (cf. At 10,9-16).
4. O mesmo Pedro, às três horas da tarde, subiu com João ao Templo, e lá restituiu a saúde ao paralítico (cf At 3,1-10).15
Tertuliano deu também a seguinte orientação:
Desta forma, ao menos três vezes ao dia, vamos adorar as Três Pessoas às quais devemos tudo: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Obviamente, essas orações acrescentam-se às outras prescritas regularmente, e mesmo sem indicação explícita devem ser recitadas ao raiar do dia e ao cair da noite.16
Já Hipólito de Roma menciona as horas canônicas de oração, dando a elas um sentido cristológico: “Se estiverdes em casa, rezai e bendizei a Deus na hora terceira. Se estiverdes num outro local, rezai a Deus no coração, pois foi nessa hora que Cristo se viu pregado no madeiro”17. “Rezai, igualmente, na hora sexta pois, quando Cristo foi pregado na cruz, o dia se dividiu e as trevas surgiram”18. “Façam, ainda, uma grande prece exaltando o Senhor por volta da hora nona, para sentirem como a alma dos justos glorifica a Deus, que não é mentiroso e lembra dos seus santos, enviando seu Verbo para iluminá-los”19.
Todavia, é Justino, o Mártir, a fonte mais antiga dos pais apostólicos a mencionar a estrutura da liturgia dos cultos nas comunidades cristãs do século II. Justino escreveu:
No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: “Amém”. Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provisor de todos os que se encontram em necessidade. Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos.20
Há uma clara estrutura litúrgica na descrição de Justino: 1) Leitura Bíblica; 2) Exortação ou Pregação; 3) Oração com preces (Oração Geral); 4) Eucaristia com um “Amém” na liturgia; e 5) Recolhimento das ofertas à diaconia. A celebração acontece no Domingo em constante memória da ressurreição de Jesus.
Assim, torna-se evidente e inquestionável o quanto as primeiras comunidades após Pentecostes mantinham a liturgia para organizar o culto, a espiritualidade, a devoção e a piedade. A liturgia não é uma mera invenção humana; a liturgia é bíblica! A liturgia proporciona uma forma bíblica, estruturada, equilibrada e organizada para a oração, evitando exageros ou a arbitrariedade temática de quem está no ministério com ordenação e a molda “à sua imagem e semelhança”. A liturgia revela a identidade confessional de uma denominação religiosa. Por isso, ela não pode ser ignorada simplesmente como inútil ou descartável.
Além do mais, não é à toa que a “doutrina dos apóstolos”, “a comunhão”, “o partir do pão” e “as orações” apareçam no mesmo versículo. Conforme o padre Romano Guardini (1885-1968), as “orações são dominadas e vivificadas pelo dogma”21. Uma comunidade é constituída de pessoas diferentes, com pensamentos diversos, temperamentos distintos e gostos particulares. Por isso, Guardini defende que
Para que uma oração coletiva possa ser útil, é necessário que ela se estruture num pensamento dogmático límpido e rico. Somente desse modo poderá servir a uma comunidade composta de temperamentos variados e na qual vibram as correntes emotivas mais diversas.22
Por isso, como nas primeiras comunidades cristãs, “só é boa a oração que vem da verdade”23, pois, afinal de contas, “a liturgia não é senão a verdade rezada”24, razão primordial da sua preservação: manter a liturgia não significa manter costumes humanos, mas a transmissão da verdade bíblica e doutrinária da comunidade que a celebra. A liturgia é uma manjedoura que tem como função carregar o Evangelho.
Na teologia luterana, “no culto, Deus vem se encontrar com a comunidade. Isto implica que o culto cristão aponta para aquilo que Deus faz e não, em primeira instância, para aquilo que nós fazemos”25. Para Lutero, o culto público na igreja é um diálogo entre Deus, que fala com a comunidade por meio de sua santa Palavra, e a comunidade, que fala com Deus por meio da oração e do cântico de louvor26. É importante destacar que, na Reforma, Lutero não abandonou completamente a liturgia que estava em uso, mas a adaptou para estar de acordo com o Evangelho.
A IECLB possui uma Liturgia Oficial aprovada no XXII Concílio Geral, em 200027. Embora não haja espaço aqui para um olhar detalhado para ela, é importante destacar que sua estrutura é bíblica e correlata aos moldes que se consolidaram na História da Igreja. Análoga ao Antigo Testamento, a Liturgia de Entrada cria a expectativa pelo Messias que virá na leitura do Evangelho; análoga ao Novo Testamento, a Liturgia de Saída nos envia como discípulos a proclamar o Evangelho no mundo.
Enquanto a liturgia é um conjunto de elementos dispostos e uma determinada ordem para um determinado propósito, o culto é o serviço de Deus ao ser humano. Nos reunimos em culto porque confiamos na promessa de Jesus, que disse: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles” (Mateus 18.20). Por isso, o culto é o encontro de Deus com pessoas, realizado em um lugar determinado para isso – o templo28. O culto congrega pessoas na presença de Deus. E Deus, ao reunir pessoas no culto, faz com que elas sejam uma comunidade.
Portanto, a liturgia é uma marca importante do crescimento da comunidade de Jerusalém não apenas por formalmente organizar o culto comunitário, mas por ser um instrumento para a proclamação do Evangelho de forma organizada, que faça sentido e seja apropriada para cada época do ano em suas diferentes festividades, bom como para o luto, a esperança e o discipulado, momentos que marcam a vida da pessoa cristã.
Inicialmente, pode ser difícil pensar na liturgia como uma das marcas do crescimento da comunidade em Jerusalém. Contudo, quando compreendermos que a liturgia é a expressão da verdade do Evangelho, torna-se claro que sem fidelidade à verdade, é impossível à Igreja crescer. O texto bíblico diz que “em cada alma havia temor;” (Atos 2.43a), pois uma das consequências espirituais da liturgia é conduzir ao ser humano ao temor ao Senhor. Por isso, não é por acaso que o temor e a reverência apareçam logo após a menção “das orações”. O encontro de Deus com o seu povo produz uma profunda reverência, respeito e admiração pelo sagrado. Assim, o temor não é o medo, mas a admiração diante da grandiosidade de Deus e, ao mesmo tempo, sua humilde revelação no Cristo crucificado e ressuscitado. Todos estavam profundamente tocados pela vida e pelo ministério de Cristo. Suas almas estavam preenchidas pelo amor do Senhor.
Em vez de abandonar a liturgia, é preciso que ela seja vivificada. A liturgia bíblica produz o temor ao Senhor. Abandonar a forma é um atalho fácil, mas perigoso, pois põe em risco a clareza doutrinária e confessional da Igreja. Acredito que o melhor caminho seja aquele que renova a ordem litúrgica com alegria e entusiasmo, respeitando-a.
Também é preciso ter cuidado. O excesso de elementos textuais sobrecarrega a liturgia e a deixa pesada para os ouvintes, tornando-a cansativa. Alinhado aos princípios bíblicos e dos Pais da Igreja, acredito que a Liturgia Oficial da IECLB, realizada de forma simples e bem pensada é suficiente para um culto alinhado à verdade do Evangelho e que anima as pessoas cristãs na vivência da sua fé.
5. OS MILAGRES E A PREGAÇÃO DO EVANGELHO
“e muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos.” (Atos 2.43b).
Na Comunidade de Jerusalém e nas primeiras comunidades cristãs, sinais e prodígios eram usados pelo Espírito Santo para confirmar o ensino dos apóstolos. O próprio Senhor Jesus havia dito que seria assim: “Em verdade, em verdade lhes digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”. (João 14.12).
Contudo, uma vez que o fundamento foi lançado e o os escritos dos apóstolos começaram a ficar disponíveis às comunidades, principalmente através de cartas e dos quatro evangelhos escritos, os sinais de confirmação já não eram fundamentalmente necessários. Agora, o fundamento estava no ensino da Palavra de Cristo: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular. Nele, todo o edifício, bem-ajustado, cresce para ser um santuário dedicado ao Senhor. Nele também vocês estão sendo edificados, junto com os outros, para serem morada de Deus no Espírito.” (Efésios 2.20-22). O fundamento nas Escrituras foi importante porque falsos mestres também fazem sinais e prodígios (cf. Mateus 24.23-24), sendo o próprio Cristo o critério último para o discernimento de espíritos (cf. 1 João 4.1-3) segundo a doutrina dos apóstolos.
Se na Comunidade de Jerusalém os sinais e prodígios foram importantes logo após a descida do Espírito Santo em Pentecostes para que mais pessoas fossem convertidas à fé em Jesus Cristo, ao longo do tempo o Novo Testamento torna claro que a pregação recebeu maior prioridade e importância na edificação das primeiras comunidades: “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela Palavra de Cristo”. (Romanos 10.17). Agostinho de Hipona escreveu que Deus enviou o Espírito Santo: “Dele repletos, os pregadores do Evangelho encheram de igrejas o orbe da terra”29.
Enquanto o milagre está ligado à visão, a pregação está ligada à audição. Gottfried Brakemeier escreveu:
Isso significa que ao ver deve-se associar o ouvir. Enfim, é o testemunho a respeito da obra de Deus em sua integralidade que dá origem à fé. Tal fé tem a promessa de ver milagres, se a Deus assim aprouver. Cabe ao testemunho cristão abrir os olhos das pessoas para esse recurso. Pois Deus faz maravilhas.30
Assim, o milagre por si próprio ou não dizia nada ou levava à glória o próprio ser humano. Já o milagre associado à Palavra de Deus e sua pregação demonstra o agir de Deus entre o seu povo e abre os ouvidos para o que Deus tem a dizer. Por isso, não é por mera coincidência que os “sinais e prodígios” encontram-se na mesma lista que a “perseverança na doutrina dos apóstolos”.
O tema principal da pregação apostólica era o testemunho da cruz e da ressurreição de Jesus como eventos centrais da fé cristã e enquanto cumprimento das promessas do Antigo Testamento (cf. Atos 2.14-36; 7. 1-53; 1 Coríntios 1.18-25; 2.1-5; Gálatas 1.10-17). Brakemeier escreveu:
Verdade é que os evangelistas pregam (!) a história de Jesus. Não a apresentam como algo meramente passado, mas, sim, atual. Combinam historiografia e pregação do evangelho. No entender da primeira cristandade, a história de Jesus é algo que não caduca.31
Sinais e prodígios continuaram (cf. Atos 5.12-26, por exemplo) e continuam acontecendo, mas não possuem maior importância que a pregação do Evangelho. Deus pode operar milagres, mas Deus continua sendo Deus quando os milagres não acontecem conforme a vontade e o desejo do ser humano. A pregação da cruz e da ressurreição ganha maior importância porque é o testemunho do milagre mais importante já realizado por Deus: a vitória de Cristo sobre a morte (cf. 1 Coríntios 15). “A negação da ressurreição dos mortos equivale à aniquilação do evangelho em seu todo”32.
Na teologia luterana, a pregação é um ofício instituído pelo próprio Deus, conforme o Artigo V da Confissão de Augsburgo:
Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o ofício da pregação, dando-nos o Evangelho e Sacramentos, que são meios pelos quais age o Espírito Santo, consolando os corações e operando a fé onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos um Deus gracioso por mérito de Cristo, caso creiamos nisso.33
Nós cremos que Deus nos serve através da sua Palavra. Por isso, o culto é o lugar do serviço de Deus (Gottesdienst, em alemão) ao ser humano que, em gratidão, responde ao Senhor com seu louvor. O ouvir da Palavra é um chamado para obedecê-la, colocá-la em prática no dia a dia (cf. Tiago 1.22-25).34
Para finalizar esse tópico sobre milagres, sinais e prodígios, convido você a conhecer uma provocativa histórica de ficção do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). No capítulo chamado “O Grande Inquisidor” da obra “Os Irmãos Karamázov”, Dostoiévski traz uma profunda reflexão que amarra bem o tema dos sinais e prodígios em sua relação com a fé. Na ficção, Jesus decidiu voltar à terra em forma humana na Espanha do séc. XVI. Então, o Inquisidor, um cardeal de 90 anos, diz a Jesus:
Tu esperavas que, seguindo o Teu exemplo, o homem permaneceria com Deus, sem precisar de milagres. Mas não sabias que, mal o homem recusasse o milagre, logo recusaria também a Deus, pois o homem busca mais os milagres do que Deus (...). Tu não desceste da cruz quanto Te disseram, caçoando e injuriando: ‘Desce agora da cruz, para que vejamos e creiamos!’. Não desceste, pois não desejavas escravizar o homem com um milagre; querias uma fé livre, não inspirada pelo fantástico. Desejavas ardentemente um amor livre, não os êxtases servis de um escravo ante o poder que o aterroriza.35
6. ÉTICA NA ADMINISTRAÇÃO DOS RECURSOS E PROFISSÃO
“Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.” (Atos 2.44-45).
A renovação da vida comunitária passa pela maneira como os recursos da comunidade são administrados. Por serem bens coletivos de um grupo, os recursos financeiros e patrimoniais precisam ser administrados com ética, transparência e responsabilidade, tendo a sustentabilidade financeira como objetivo principal a missão de Deus.
Conforme Atos 2.44-45, no início, os membros da Comunidade Evangélica em Jerusalém optaram por uma decisão bastante radical: a generosidade espontânea de vender tudo o que possuíam e doar à Comunidade para estarem à disposição como bens comuns. Um dos maiores motivos para essa decisão radical estava na esperança da volta do Senhor Jesus dos céus: se o Senhor viria em breve, do que adiantaria possuir riquezas e propriedades? Assim, muitos deixaram de trabalhar e passaram a viver apenas na comunidade.
Contudo, com um olhar mais amplo de todo o Novo Testamento, descobrimos que esse modo de administração se tornou bastante ineficiente, prejudicial e problemático, principalmente porque a comunidade de Jerusalém é aquela que mais passou por necessidades, precisando de ajuda financeira das comunidades gentílicas por onde Paulo havia pregado o Evangelho: “Mas, agora, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém” (Romanos 15.25-26).
Se, de um lado, a comunidade empobreceu por causa das perseguições sofridas e confisco de bens (cf. Atos 8.1-3; 11.19; Hebreus 10.32-34), de outro lado, o modelo de administração não era o mais sábio, pois levava a uma exaustão dos recursos. Como sabemos hoje, a economia precisa girar. O povo de Deus precisa continuar trabalhando. Por isso, Paulo, já conhecendo as dificuldades financeiras da comunidade em Jerusalém, procurou prevenir os irmãos em Tessalônica para que não caíssem no mesmo erro. Ele escreveu: “Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometem na vida alheia” (2 Tessalonicenses 3.10-11).
As comunidades foram aos poucos compreendendo que era melhor seus membros continuarem com suas propriedades e profissões para então partilharem generosamente parte dos seus bens através de ofertas voluntárias compartilhadas com alegria: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (2 Coríntios 9.7). As contribuições recebidas deveriam ser administradas por um conselho de irmãos (cf. Atos 11.29-30; 2 Coríntios 8.20-21. 1 Timóteo 5.17), mas não da maneira como Judas Iscariotes administrava a bolsa dos discípulos (cf. João 12.4-6, 13.27-29). Os presbíteros deviam administrar os recursos não visando o lucro (cf. 1 Timóteo 3.8), sem ganância (cf. Tito 1.7) e com transparência (cf. 2 Coríntios 8.19-21).
Lutero foi especialmente importante na sua ênfase de que todo trabalho secular é um chamado de Deus. Na sua exposição do Salmo 147, Lutero ensina que, embora Deus possa nos alimentar diretamente, ele nos alimenta por meio do trabalho das pessoas, de modo que todos, o agricultor, o leiteiro e o quitandeiro realizam a obra de Deus. Essas são as chamadas “máscaras de Deus” onde ele trabalha no mundo de forma escondida. O trabalho é a forma de Deus trabalhar no mundo.36
Na Teologia Luterana, o trabalho (do alemão Beruf) é realizado a partir de uma vocação (do alemão Berufung). Isso significa que não são apenas os padres ou pastores que possuem um chamado divino para o ministério, mas todas as pessoas são vocacionadas e servem a Deus por meio do próximo em sua profissão. O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) escreveu que, em Lutero há “a ideia de que o bom trabalho é a vocação natural de cada um, devendo ser o resultado da renovação da vida causada pela fé”37. O próprio Lutero escreveu:
a pessoa não vive somente para si mesma neste corpo mortal, para operar nele, mas também para todas as pessoas na terra, sim, ela vive somente para os outros, e não para si. Pois para isso sujeita seu corpo, para assim poder servir a outros com mais sinceridade e liberdade.38
Até mesmo lavar as fraldas de uma criança se torna um serviço digno prestado ao próprio Deus:
Se um homem fosse lavar as fraldas ou realizasse qualquer outro serviço desprezível na criança, e todos zombassem dele, dizendo que é um babaca e afeminado; no entanto, se ele o fizesse no espírito acima descrito e na fé cristã – dize-me agora, quem zomba mais do outro? Deus se alegra com todos os anjos e criaturas, não porque [o pai] lava as fraldas, mas por fazê-lo na fé.39
Assim, a pessoa cristã exerce o Sacerdócio Geral de Todos os Crentes quando, através da sua profissão, cumpre a sua vocação, servindo a Deus por meio do próximo em seu trabalho. Com o fruto do seu trabalho, contribui com recursos financeiros através de ofertas voluntárias onde colabora ativamente para o crescimento e renovação da comunidade da qual é membro.
A sustentabilidade integral da Igreja (espiritual, missionária, financeira, social e patrimonial) é exercida através da fidelidade de seus membros nas suas contribuições e através da administração ética, transparente e responsável dos recursos financeiros arrecadados, prezando pelo zelo no investimento em projetos locais, sinodais e nacionais que promovam a Missão de Deus no mundo.
7. A DIACONIA
“partiam o pão de casa em casa” (Atos 2.46b).
“e contando com a simpatia de todo o povo” (Atos 2.47b)
O partir do pão da Eucaristia na mesa do altar motivava os primeiros cristãos a partirem o pão para ser partilhado de casa em casa. A deixar a reunião com Cristo na reunião do culto, a pessoa cristã encontra Cristo nos pequeninos do mundo que precisam do seu serviço (cf. Mateus 25.31-46) e que precisam de alimento, água, casa, roupas, remédios e companhia. Por isso, o encontro com Cristo é sempre um encontro diacônico.
A espiritualidade está ligada à materialidade. A vida de fé não é vivida fora da realidade, mas dentro dela. Cristo Jesus é o Deus que se fez carne e habitou entre nós (cf. João 1.14). Portanto, Deus não negou a matéria, mas a assumiu. Durante seu ministério, Jesus realizou várias ações diaconais: a multiplicação de pães e peixes (cf. Marcos 6.30-56), a cura de diversas enfermidades do espírito e do corpo (cf. Lucas 7.11-17; Mateus 8.1–17; 9.1-8, 18-26, 27-31; João 4.46-54; Marcos 1.29-34; 5.24-34 entre outros textos), transformou água em vinho (cf. João 2.1-11), fez o milagre da pesca maravilhosa (cf. Lucas 5.1-11), entre tantas outras ações. Como pessoas cristãs, cremos que Jesus é o Deus diácono: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10.45).
O movimento da diaconia acontece no aconselhamento, nas boas obras, no ouvir, no abraçar, no acolher. Quem cuida, não vive apenas para si mesmo, mas vive para ajudar e servir aos outros: “cooperem os membros [do Corpo de Cristo] com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1 Coríntios 12.25). Coopera para que haja justiça e vida no mundo da corrupção e da morte. Também exercemos a diaconia e o cuidado quando repartimos os nossos bens com o nosso próximo por meio das ofertas de gratidão (2 Coríntios 5.7).
No Novo Testamento, a comunidade mais marcada pela ação diaconal é a dos filipenses. Já no primeiro versículo da carta de Paulo àquela comunidade, ele diz: “aos santos em Cristo Jesus estando em Filipos com bispos e diáconos” (Filipenses 1.1). Paulo agradece a Deus pela atuação diaconal dos filipenses, pois são eles que enviam donativos ao apóstolo durante a sua prisão (cf. Filipenses 4.10-15). Para Paulo, Cristo Jesus é o maior exemplo de diaconia (cf. Filipenses 2.5-11), pois Cristo não se aproveitou pelo fato de ser Deus, mas é o Deus que assumiu a forma de servo. Ele se esvaziou da sua glória (mas não da sua identidade divina) para ser como nós, seres humanos. Ele se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz, pois o Deus cristão é o Deus que serve morrendo na cruz. Na experiência da cruz, encontramos a maior expressão da pregação de Jesus: a diaconia que cumpriu todo o seu ensino. Desta forma, Paulo demonstra aos filipenses que a maior diaconia que a pessoa cristã pode fazer é imitar a atuação diaconal de Jesus, esvaziando-se do poder e do orgulho e, de forma humilde, colocando-se à disposição de outras pessoas. A Igreja foi capaz de mudar a história do mundo por causa da sua identificação e ação com as necessidades humanas das pessoas no Império Romano40.
Lutero também escreveu sobre a diaconia. Na sua interpretação de Filipenses 2.5-11, ele escreveu:
Cristo Nosso Senhor, porém, ordenou que ninguém pretendesse ser o deus do outro, mas que cada qual fosse servo do outro, segundo o amor; que ninguém desejasse a infelicidade e a desgraça do outro nem se alegrasse com elas; pelo contrário, que todos fossem compassivos e misericordiosos para com a necessidade e a desgraça do próximo.41
Logo, a ação diaconal pressupõe que o ser humano deixe Deus ser Deus para que ele seja ser humano. Isso significa liberdade, pois a diaconia é expressão da liberdade cristã: “Um cristão é senhor livre sobre as coisas e não está sujeito a ninguém. Um cristão é um servo prestativo em todas as coisas e está sujeito a todos”42. Isso significa que pela fé o ser humano está livre de toda e qualquer obrigação, pois foi salvo pela graça; pelo amor, o ser humano é escravo de todos, pois, como pessoa salva, praticará boas obras para o seu próximo.
A atuação diaconal da IECLB é marcante em sua história. Embora sejamos uma “igreja pequena”, não somos irrelevantes. Desde as suas remotas origens em 1824, a IECLB é marcada pelas obras de misericórdia. Somos uma igreja que acompanha as pessoas do nascimento até à sepultura.
A atuação da IECLB é uma atuação marcada pela diaconia que se amplia para além das fronteiras eclesiásticas. As comunidades da IECLB foram importantes na área da educação de base. Ao longo de sua história, o engajamento das mulheres sempre foi algo fundamental com a participação feminina nas áreas da saúde e do serviço. Por isso, é marcante na IECLB a atuação da OASE – Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas.
Na fé cristã, assumir cargos de liderança não significa assumir poder, mas o serviço. Liderar significa dispor-se a servir. Conforme James Hunter, liderança “é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir os objetivos identificados como sendo para o bem comum”43. Enquanto o poder busca coagir ou forçar alguém a fazer algo, a autoridade leva as pessoas a agirem de boa vontade. A liderança cristã, portanto, é profundamente diaconal, pois, inspirada e fundamentada na diaconia de Jesus, busca o serviço e não o orgulho ou o poder.
Assim, o crescimento e a renovação da Igreja são impensáveis sem a diaconia, especialmente porque olha para fora do próprio “quadrado”. A Igreja não poderá ser relevante em uma cidade se isolando dela. O chamado de Deus à sua Igreja não é apenas a usar a cidade para conseguir novos membros à comunidade, mas a usar a comunidade para abençoar a cidade.44 É por isso que a comunidade em Jerusalém contava “com a simpatia de todo o povo” (Atos 2.47b), pois uma das grandes marcas da atuação diaconal na cidade é o contato com pessoas que ainda não vivem em uma comunidade cristã. Esse é um chamado à Igreja abençoar a rua, o bairro e a cidade onde está plantada.
8. REFEIÇÕES COMUNITÁRIAS
“e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração” (Atos 2.46c).
Refeições comunitárias cheias de alegria foram uma das grandes marcas da comunidade de Jerusalém onde todos podiam participar de forma singela, ou seja, com coração leve.
A festas já eram uma marca importante do povo de Deus no Antigo Testamento. O povo de Deus gostava de celebrar o que Deus tem feito em sua história, expressando sua alegria diante do Senhor. A Festa do Dia da Expiação era realizada uma vez por ano onde, através de sacrifícios, acontecia o perdão dos pecados (cf. Êxodo 30.10; Levítico 23.26-31). A Festa da Páscoa durava três dias por ano e foi estabelecida para comemorar a libertação da escravidão no Egito (cf. Êxodo 10.12; 12.8, 14). A Festa da Colheita (também chamada de Festa das Semanas) acontecia no “dia de Pentecostes” (50 dias após a Páscoa Judaica) e era uma convocação para que o povo de Deus ofertasse parte da sua colheita (cf. Êxodo 23.16; 34.22; Números 28.26).
Estas três festas são reinterpretadas pelos cristãos do Novo Testamento a partir do sentido que a Nova Aliança confere a elas. A Festa da Expiação passou a lembrar anualmente a morte vicária de Cristo na cruz na Sexta-feira da Paixão, onde o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29) foi entregue para o perdão dos nossos pecados. A Festa da Páscoa passou a ser a celebração anual da ressurreição de Jesus e sua passagem da morte para a vida. A Festa da Colheita passou a ser a celebração anual da descida do Espírito Santo sobre a comunidade de Jerusalém. As refeições comunitárias celebravam esses momentos fundantes da fé cristã.
Antes disso, Jesus também teve vários momentos de refeição, entre os quais lembramos quatro: com pecadores e publicanos (cf. Mateus 9.10); a última Ceia com os seus discípulos onde Jesus tomou o pão da Páscoa judaica e o ressignificou em torno de si mesmo (cf. Mateus 14.22-26; Lucas 22.14-20; 1 Coríntios 11.23-25); em Emaús onde Jesus foi reconhecido por dois discípulos no momento do partir do pão (cf. Lucas 24.13-35); e ao aparecer ressurreto aos discípulos, onde Jesus comeu um peixe na presença dos discípulos, demonstrando não ser um fantasma (cf. Lucas 24.41-43).
Por isso, promoções comunitárias devem visar a comunhão, a alegria, a celebração e a gratidão a Deus que conduz a história do seu povo. Para serem expressão de uma igreja viva, não devem ter como foco principal o lucro ou o retorno financeiro, mas a oportunidade de viver em Comunidade. O retorno financeiro deve ser a consequência, não o objetivo, pois a missão é viver em comunhão e celebrar juntos, com alegria, o amor de Deus pelo seu povo.
9. MÚSICA E ADORAÇÃO
“louvando a Deus” (Atos 2.46c).45
Parafraseando John Rutter, regente inglês, “uma igreja sem música é como um corpo sem alma”46. A música e o louvor são partes fundamentais do culto cristão. Não é à toa que já está presente na primeira comunidade após o Pentecostes.
O Antigo Testamento é marcado pela música. Salmos e canções ecoavam a tradição oral de Israel por gerações. Com um grande domínio da poesia, os judeus expressaram na forma da arte os sentimentos mais diversos da sua fé. Os hinos do Antigo Testamento não eram musicalmente complexos, mas possuíam um estilo recitativo e declamatório, na improvisação em quatro tons.47 Moisés e Miriã cantaram após a travessia do Mar Vermelho (cf. Êxodo 15.1-21); com duas trombetas de prata, Moisés convoca a congregação para o culto (cf. Números 10.1-10); Débora e Baraque cantam após a vitória sobre Sísera (cf. Juízes 5.1-31).
Contudo, o musicista mais conhecido do Antigo Testamento foi o rei Davi. Ele tocava harpa (cf. 1 Samuel 16.14-23) e, após cometer adultério com Bate-Seba e colaborar com a morte de seu esposo, Urias, Davi expressou sua confissão de pecados no hino do Salmo 51. Os Salmos foram escritos nas mais diversas ocasiões da História de Israel e eram usados tanto coletivamente quanto individualmente. Originalmente, o livro de Salmos não foi escrito na ordem em que o encontramos hoje, mas são hinos que foram coletados e colecionados em um único livro.
Certamente que a música das primeiras comunidades cristãs se inspirou nos modelos vigentes no judaísmo. Como já mencionado, inicialmente os seguidores de Jesus não se viam como fundadores de uma nova religião, mas como judeus que reconheceram o Messias. Por isso, a diferença estava no centro da adoração que passava a ser cristocêntrica, como escreveu o apóstolo Paulo: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Efésios 5.19-20).
É importante destacar que a adoração e a ação andavam de mãos dadas no culto ao Senhor, conforme lemos em Hebreus 13.15-16: “Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não se esqueçam da prática do bem e da mútua cooperação, pois de tais sacrifícios Deus se agrada”. Assim, a adoração e o louvor precisam redundar na ação ao próximo – pois isso agrada a Deus.
É possível fazermos um rastreamento de como o louvor e a adoração se desenvolveram no Novo Testamento para além desta primeira comunidade em Jerusalém. Uma das grandes marcas é o louvor coletivo (cf. 1 Timóteo 2.1; 1 Coríntios 14.16); Os cânticos do povo da nova aliança louvam a Deus e os cristãos se encorajam uns aos outros (cf. Colossenses 3.15; 1 Coríntios 14.15, 26; 1 Timóteo 3.16; Apocalipse 5.9-13; 11.17ss; 15.3-4); O povo reunido em culto responde ao louvor, oração e bênção com o amém (cf. 1 Coríntios 14.16; Apocalipse 5.14; Romanos 1.25; 9.5; Efésios 3.21); entre outros elementos48.
A música e a adoração não buscam chamar a atenção de Deus como obra realizada pelo ser humano para agradar ao divino, mas são a resposta humana adequada ao agir que Deus já realizou em nosso favor através de Jesus Cristo:
Fazemos isso tornando a Palavra de Deus o centro das nossas atividades – lendo-a, pregando-a, fazendo dela a base da exortação e até colocando-a em forma de música por meio de hinos e louvor. Estamos certos de que o Espírito usa tudo isso para nos edificar em Cristo. O louvor é parte integrante das nossas atividades na igreja, porque é outra forma de nossa resposta de fé. 49
Lutero foi o responsável por um novo movimento musical dentro da Igreja de Jesus. “Para ele, a música era um meio, sem equivalente, de comunicar a Palavra de Deus, integrando a comunidade, a música e os hinos cantados no vernáculo, ao culto”50. O canto na língua do povo é muito importante para que surja a fé:
As verdades bíblicas, mergulhadas na alma, também formam a mente religiosa e aguçam a inteligência, o que tornou fundamental que as pessoas cantassem em seu idioma: o alemão. Isso porque uma pessoa não canta (e ouve) somente com as palavras, mas com o coração e a mente. A fé vem pelo ouvir – mas daí também do ouvir o som. E como no canto, a palavra e o som estão juntos, a comunidade que canta tem papel fundamental, logo atrás da pregação. Para Lutero era óbvio: música da igreja é uma forma de pregação, um abrir de ouvidos e corações para a mensagem do Evangelho. Por isso, a Música Sacra é também sempre, Teologia. Dizer e cantar: proclamação em frases e sentenças cantadas e faladas.51
Um dos grandes dilemas enfrentados por comunidades no presente é a tensão entre tradição e contemporaneidade. Ao contrário do que comumente se pensa, essa tensão não é apenas contemporânea, mas existe desde o Antigo Testamento52. De um lado estão os que acreditam que a tradição musical faz parte da identidade da igreja, mesmo que o estilo seja ligado aos antepassados. Estes tem dificuldade com o louvor contemporâneo principalmente por causa do seu apelo emocional e comercial. De outro lado estão aqueles que acreditam que o louvor antigo é pouco evangelístico e que, para atrair pessoas, é preciso inovar nas letras e na forma musical, abandonando o órgão de tubos e tudo aquilo que, em sua opinião, afasta as pessoas. No meio, muitas vezes estão ministros/as com ordenação buscando formas de lidar com “gregos e troianos”. Como lidar com essa tensão na vida em comunidade? Há uma fórmula que agrade igualmente a todos? Dividir o culto com hinos, metade tradicionais, metade novos, é uma solução bíblica e eficaz?
O pastor norte-americano Timothy Keller (1950-2023) abordou o assunto com bastante sabedoria, apontando os problemas tanto do louvor contemporâneo quanto do histórico. Keller descreve o louvor contemporâneo como marcado por muito sentimentalismo, apelo comercial e superficialidade. Muitos adeptos dessa visão fazem uma ruptura radical com a tradição histórica, como se a Igreja existisse apenas a vinte anos e tudo o que havia anteriormente estivesse equivocado. É um louvor sem raízes e com obsolescência programada: por fazer parte de uma indústria53, está em uma esteira onde é consumido para logo depois ser descartado e então dar lugar a um novo produto.54 De outro lado, o louvor tradicional é muitas vezes marcado por um elitismo cultural, pois aprisiona a adoração a um único padrão estilístico aceitável. Ao mesmo tempo, esquece que mesmo a adoração tradicional não é o todo da História da Igreja, mas apenas um recorte dela.55 Neste cenário, Keller propõe o seguinte:
Em resumo, creio que a solução para o problema das “guerras de adoração” não é rejeitar nem consagrar a tradição histórica, mas forjar novas formas de culto coletivo que levem a sério tanto nossa história quanto as realidades contemporâneas, tudo dentro de um quadro de teologia bíblica.56
O critério, portanto, deixa de ser as preferências pessoais e passa a ser a Bíblia. O foco não pode estar em agradar pessoas, mas o culto deve ser realizado para promover a Cristo e o Reino de Deus.
Keller defende que uma escolha de hinos metade tradicionais e metade contemporâneos não é uma forma bíblica e sábia para a música em comunidade. O processo de escolha precisa ser mais artesanal e profundo, levando em conta a teologia bíblica, a confessionalidade respectiva da denominação e cultura local, criando uma adoração que seja autêntica, transcendente e transformadora.57 Esse é um processo mais trabalhoso, mas que certamente dará melhores resultados a longo prazo para que o povo de Deus continue louvando ao Senhor de geração em geração (cf. Salmo 90.1-2).
CONCLUSÃO
“Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (Atos 2.47c).58
As 9 marcas do crescimento da comunidade de Jerusalém são inspiradoras. A partir de um olhar mais profundo a partir da intertextualidade bíblica, História da Igreja e confessionalidade luterana, descobrimos que nem sempre aquilo que está imediatamente diante dos nossos olhos é tão óbvio quanto parece. Há mais camadas de profundidade que apenas o tempo de estudo dedicado pode perscrutar.
A proposta desse texto não é que as 9 marcas sejam seguidas como uma “receita pronta” para ser aplicada como um “copiar e colar que certamente levará nossas comunidades ao mesmo resultado da igreja em Jerusalém”. Ao contrário, o impulso aqui pretendido não é apenas que leiamos o texto bíblico, mas que deixemos que o texto bíblico nos leia; não é apenas interpretar a Bíblia, mas deixar que a Bíblia nos interprete. A Palavra de Deus é a autoridade que nos conduz a um autoexame para reavaliação, conversão, arrependimento e volta aos caminhos da vida em Jesus. Neste sentido, certamente há muito o que examinar em nossa vida comunitária para, como muita oração, possamos buscar estar mais próximos da vontade de Deus.
Nossa IECLB sobreviverá até o ano 2050? É difícil responder. Importante é que cada comunidade, paróquia e sínodo continue cumprindo a missão de Deus no mundo com fidelidade às Escrituras, respeito à confessionalidade luterana e criatividade para conectar o passado à geração do presente.
Muitas pessoas buscam hoje em diferentes igrejas aquilo que nunca foi prometido pelo Novo Testamento: uma mensagem motivacional, prosperidade financeira e poder terreno. Já o convite de Jesus é claramente bem diferente: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23). É possível que ser fiel à cruz de Cristo signifique um tempo de carestia para a Igreja de Jesus neste momento em que as demandas pessoais não buscam a oferta do Evangelho. Talvez, ser fiel à Palavra signifique passar por tempo de carestia – tempo de dificuldade para a nossa igreja. Mas mantenho uma convicção: vale a pena ser fiel, ainda que a sabedoria da cruz não seja a sabedoria que o mundo procura. Vale a pena ser fiel ao nosso propósito de ser como igreja que prega pura e retamente a Palavra de Deus e administra corretamente os sacramentos – a Santa Ceia e o Batismo onde Deus oferece perdão, graça e misericórdia.
Rupturas radicais não são a melhor solução. Não é sábio abandonar a sabedoria da cruz para agradar as demandas pessoais com a sabedoria do mundo (2 Coríntios 2.1-12). Não é sábio querer mudar tudo o que existe na comunidade para exibir, ostentar e alardear números como sinais de que “estamos no caminho certo”. O chamado à Igreja hoje é o mesmo que foi feito às primeiras comunidades cristãs: que, dia após dia, pessoas sejam salvas, pois números medem pessoas, mas não são capazes de medir a fé.
O Senhor abençoe a sua Igreja e a faça cada vez mais próxima da sua vocação revelada em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador. Amém.
Notas e referências
BOLL, Godofredo. “Nossa igreja sobreviverá ao ano 2000?”. in: KANNENBERG, Hilmar (ed.). Revista Presença. nº1. Março/1971. Porto Alegre: Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, 1971. p. 8-10.
↩Metáfora do Pastor Prof. Dr. Martin Norberto Dreher na palestra “Cento e Noventa Anos de Vidas Luteranas em Comunhão: Esquecimentos e Lembranças” no XXIX Concílio da IECLB realizado em Rio Claro/SP em 19/10/2024. Disponível em: <https://www.luterano.org.br/cento-e-noventa-anos-de-vidas-luteranas-em-comunhao-esquecimentos-e-lembrancas/>. Acesso em: 08. fev. 2026.
↩SCHATTENMANN, J. Koinonia – comunhão. In: BROWN, C.; COENEN, L. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. I e II. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 377.
↩Confissão de Augsburgo, artigos VII e VIII. in: MELANCHTON, Filipe. A Confissão de Augsburgo. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2023. p. 41-42.
↩BONHOEFFER, Dietrich. Vida em Comunhão. ed. 2. São Leopoldo: Sinodal, 1986. p. 10.
↩BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. 3. ed. revisada. São Leopoldo: Sinodal, 1997. p. 59.
↩MELANCHTON, 2023. p. 42.
↩Ex opere operato.
↩MARTINI, Romeu. Livro de Culto. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 14.
↩MARTINI, 2003. p. 14.
↩Cf. CARSON, Don. “A adoração por meio da palavra”. in: CARSON, Don; KELLER, Timothy; HUGHES, Kent; ASHTON, Mark. Louvor. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. p. 19.
↩CARSON, 2017. p. 19.
↩Cf. LIMA VIEIRA, Daniel de. Lecionário Devocional. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2025. p. 11.
↩DIDACHÊ: Instrução dos Doze Apóstolos. in: Padres Apostólicos: Coleção Patrística. vol. 1. São Paulo: Paulus, 1995. p. 283.
↩CARTAGO, Tertuliano de. Da Oração. Disponível em: <https://apologistascatolicos.com.br/obraspatristicas/Obras/PadresSecII/Tertuliano/DaOracao.htm>. Acesso em: 04. fev. 2026.
↩CARTAGO. Disponível em: <https://apologistascatolicos.com.br/obraspatristicas/Obras/ PadresSecII/Tertuliano/DaOracao.htm>. Acesso em: 04. fev. 2026.
↩ROMA, Hipólito de. Tradição Apostólica. Florianópolis, 2025. p. 27. Disponível em: <https://byblos.ecclesia.org.br/wp-content/uploads/2025/02/Tradicao-Apostolica-de-Hipolito-de-Roma.pdf>. Acesso em: 04. fev. 2026.
↩ROMA, 2025. p. 27.
↩ROMA, 2025. p. 27.
↩MÁRTIR, Justino. “Apologia I”. in: MÁRTIR, Justino. I e II Apologias. Coleção Patrística. vol. 3. São Paulo: Paulus, 1995. p. 79.
↩GUARDINI, Romano. O espírito da liturgia. São Paulo: Cultor de Livros, 2018. p. 13. Guardini foi professor de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, e é um teólogo respeitado e admirado entre católicos e protestantes.
↩GUARDINI, p. 14.
↩GUARDINI, p. 14.
↩GUARDINI, p. 15-16.
↩EWALD, Werner. Sobre sentidos, lugares e prioridades: uma breve reflexão. in: EWALD, Werner (Org.). O Ofício da Música na Igreja. Blumenau: Otto Kuhr, 2020. p. 14.
↩Cf. WANDEBOURG, Dorothea. “Culto”. in: LEPPIN, Volker; SCHNEIDER-LUDORFF, Gury (ed.). Dicionário de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 2021. p. 276.
↩Cf. MARTINI, p. 8.
↩Para saber mais sobre os significados do espaço litúrgico, leia: THOMAS, Edith. A Casa de Deus. São Leopoldo: Sinodal, 1968. Sobre a pedagogia do espaço litúrgico, leia: QUADROS FRISKE, Traudy de; WISCHRAL RODRIGUES, Marilse. “Arquitetura e Arte Sacra: A Estrutura Física da Igreja como Método Didático”. in: Azuza: Revista de Estudos Pentecostais. v. 6, nº 2. jul-dez. Joinville: Refidim, 2015. p. 141-158. Disponível em: <https://azusa.emnuvens.com.br/revista/article/view/103/103>. Acesso em: 10. fev. 2026.
↩AGOSTINHO, Santo. Comentários aos Salmos. Coleção Patrística, vol. 9.1. São Paulo: Paulus, 1997. p. 77.
↩BRAKEMEIER, Gottfried. O Segredo do Milagre. São Leopoldo: Sinodal, 2012. p. 52. Edição do Kindle.
↩BRAKEMEIER, 2012. p. 55.
↩BRAKEMEIER, 2012. p. 30.
↩MELANCHTON, 2023. p. 39.
↩Para saber mais sobre o ofício da pregação, leia: STOTT, John. O desafio da pregação. Viçosa: Ultimato, 2022.
↩DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. São Paulo: Martin Claret, 2019. p. 290-291.
↩Cf. KELLER, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 249.
↩WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1985. p. 157-158. (Citação na Nota de rodapé).
↩LUTERO, Martinho. “Tratado de Martinho Lutero sobre a Liberdade Cristã”. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: O programa da Reforma: Escritos de 1520. vol. 2. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 451.
↩LUTERO, Martinho. Da vida matrimonial – 1522. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: ética: fundamentos – oração – sexualidade – educação – economia. v. 5. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2011. p. 177.
↩Cf. KELLER, 2014. p. 179.
↩LUTERO, Martin. Aos Pastores que Preguem Contra a Usura - 1540. In: LUTERO, Martin. Obras Selecionadas: Ética: fundamentos – oração – sexualidade – educação – economia, v. 5. 2. Ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia. 2011. p. 479.
↩LUTERO, Martin. Da Liberdade Cristã. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 7.
↩HUNTER, James. O monge e o executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. p. 28.
↩Cf. KELLER, 2014. p. 198-215.
↩Embora o tema esteja diretamente ligado à marca 4 (Liturgia e Culto), optei por trabalhar o tema de forma separada para que houvesse mais espaço na tensão entre tradição e contemporaneidade.
↩No original: “I would say that a Church or a School without a choir is like a body without a soul. We have to have a soul in our lives”; JOHN Rutter. The importance of Choir (Interview). [S. l.: s. n.], 2017. 1 vídeo (3 min). Publicado pelo canal John Rutter & The Cambridge Singers. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XqsjkLPeuAQ>. Acesso em: 10. fev. 2026.
↩Cf. FREDERICO, Denise C. S. Cantos para o culto cristão. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 71.
↩Cf. CARSON, 2017. p. 47.
↩DOYLE, Robert. The One True Worshipper. in: The Briefing, 29. April 1999. p. 8. apud: CARSON; KELLER; HUGHES; ASHTON, 2017. p. 49.
↩EWALD, Werner. “Desenvolvimento e concepção musical na Igreja desde a Reforma Luterana no Século XVI até o Século XXI”. in: EWALD, 2020. p. 23.
↩HEINRICH EBERLE, Soraya. “Livro de Canto: Instrumento para a educação teológica e litúrgica da comunidade”. in: EWALD, 2020. p. 54.
↩Para saber mais, leia: FREDERICO, Denise C. S. Cantos para o culto cristão. São Leopoldo: Sinodal, 2001.
↩Para saber mais, leia: ADORNO, Theodor. Industria cultural e sociedade. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024.
↩Cf. KELLER, Timothy. “Adoração Reformada Globalizada”. in: CARSON; KELLER; HUGHES; ASHTON, 2017. p. 196-197.
↩Cf. KELLER, 2017. p. 197.
↩KELLER, 2017. p. 200.
↩Cf. KELLER, 2017. p. 236-238.
↩Embora o tema esteja diretamente ligado à marca 4 (Liturgia e Culto), optei por trabalhar o tema de forma separada para que houvesse mais espaço na tensão entre tradição e contemporaneidade.
↩